Infelizmente a carreira de promotor de justiça exige despedidas. Esta é a mais dolorosa da minha carreira. Há três anos e três meses cheguei a Seara sabendo ser apenas a cidade das borboletas. Hoje, saio promovido, para ficar mais perto da família, mas com a certeza de ter vivido na cidade dos amigos, da conversa gostosa, da deliciosa culinária italiana, do povo responsável, ordeiro, colaborador e gentil.
Já sinto saudades. Andar pelas ruas e ser cumprimentado sempre com sorrisos. Almoçar com amigos. Contar com o apoio, sempre incondicional, da população, dos funcionários públicos, dos advogados, da polícia. Agora sei: é por isso que volta e meia algum promotor ou juiz mais antigo que tenha passado por aqui me pede que transmita abraços aos velhos e bons amigos.
Atribuo a esse povo encantador o sucesso de diversas ações da promotoria. Sem o apoio de tantas pessoas, pouco seria possível concretizar. Começo lembrando da regularização de loteamentos, das calçadas, da investigação contra as drogas; lembro também do combate à poluição atmosférica (Farol, por exemplo) e sonora e do blog da Promotoria, que teve 630 postagens, com mais de 120 mil acessos. Lembro também das verdadeiras batalhas travadas com operadoras de telefonia em prol dos consumidores da cidade e do interior, da ação para suspender o loteamento, via licenças ambientais, do rio Irani, da Operação Moccus, que desbaratou grande esquema de sonegação fiscal e permitiu a prisão de dois fiscais corruptos. Outra das grandes conquistas foi tornar ampla e irrestrita a publicidade de atos oficiais, com a exigência de publicação nas páginas das prefeituras municipais, transformando o cidadão em fiscal da lei.
As diversas campanhas idealizadas pela Promotoria, dentre elas o Projeto Redigindo o Futuro, não teriam o mesmo sucesso em outras cidades. Aqui contaram com o apoio de abnegados cidadãos, pessoas que chamam para si a responsabilidade por uma cidade melhor.
Lembro também das inúmeras palestras nas escolas, das entrevistas na rádio, dos júris e audiências, do atendimento ao público... embora difícil, trabalhosa e por vezes muito estressante, a profissão de promotor de justiça tem um doce sabor. Permite ver resultados nos olhos das pessoas, enchendo nosso travesseiro da sensação de dever cumprido.
Claro que nem sempre acertei. Errei, e por isso peço desculpas. Mas – aprendi cedo – quando erramos com a intenção de acertar, com o objetivo de fazer o nosso melhor, o erro não é simplesmente erro; é aprendizado. E este aprendizado levarei para toda a minha vida.
São tantas as pessoas que passam por nossa vida num curto espaço de três anos que seria absolutamente injusto tentar nominá-las aqui. Agradeço então às instituições, feitas de pessoas, pedindo que todos sintam-se aqui abraçados e recebam meu muito obrigado. Em primeiro lugar, aos servidores do fórum de Seara, com quem trabalhamos: todos os servidores e estes dedicados magistrados, trabalhadores incansáveis em busca da rápida realização da justiça. À Polícia Militar e Civil, e aos Bombeiros, também fica o registro de meu enorme débito. Sem pessoas com a responsabilidade social dos policiais e bombeiros que temos em Seara, pouco ou nada realizaria um promotor de justiça. Saiba a população que é graças ao empenho sobre-humano destes homens e mulheres que a justiça é efetivamente feita. As prefeituras municipais também têm grande parcela de mérito pelo que se faz numa promotoria. O respeito às recomendações e à legalidade, acima de tudo, torna as prefeituras o verdadeiro espaço da cidadania. Aqui incluam-se também conselhos tutelares, as vigilâncias sanitárias, os fiscais de obras e posturas, o Procon e todos os servidores públicos em geral, incluindo secretários municipais e estaduais, e prefeitos. A imprensa, por sua vez, foi também intensa colaboradora da promotoria. Sem seu apoio dificilmente teria o Ministério Público conseguido apontar suas forças na direção esperada pela sociedade.
Agradeço, também, mas com igual ênfase, aos advogados. E o interessante aqui é que, embora na maior parte das vezes estivéssemos em lados contrários do processo, sempre trabalhamos em prol da mesma causa. Para que a justiça seja feita é preciso igualdade de forças e armas. Por isso, quando se contrapôs nos processos a defesa intransigente dos direitos das partes, pelos advogados, com a defesa intransigente dos direitos da sociedade, pela promotoria, o sumo deste trabalho dialético foi sempre a Justiça.
Por fim, fica o registro especial de agradecimento à equipe da Promotoria de Justiça, chefiada pela competentíssima Daniela Bresolin. O promotor coordena e dirige, mas o trabalho duro e incansável tem por trás dele pessoas como a Daniela, a Daiane, a Michele, a Sara e a Josiane, além das estagiárias e estagiários que passaram por aqui e que jamais serão esquecidos: Angélica, Darcieli e Rômulo.
Agradeço, enfim, à população de Seara pela calorosa acolhida e coloco-me à disposição, como amigo ou promotor, para o que estiver ao meu alcance.
Eduardo Sens dos Santos
eduardo_sens@yahoo.com






